Jornadas de trabalho longas, horas extras frequentes, teleconferências de madrugada, vigilância constante dos chefes, metas de produção irrealistas e inegociáveis.
Essas são características da gestão empresarial chinesa, segundo mais de 30 trabalhadores, ex-funcionários, consultores e sindicalistas ouvidos pela Folha.
Embora reflitam hábitos culturais milenares da nação asiática, vêm causando estranhamento entre os trabalhadores brasileiros. O choque cultural tem se traduzido em tempo de permanência de brasileiros em empresas chinesas muito abaixo da média do mercado.
Levantamento feito pela empresa de recrutamento Michael Page a pedido da Folha indica que a taxa de rotatividade nas empresas chinesas no Brasil é de 42%. De cada 10 funcionários contratados, 4 deixam a empresa no período de 12 meses.
O percentual é 40% maior que o registrado por empresas brasileiras e 68% superior ao verificado em multinacionais americanas e europeias. O levantamento foi realizado com base nos recrutamentos feitos pela Michael Page em 2010 e no primeiro trimestre deste ano.
Para Marcelo de Lucca, diretor da Michael Page no Brasil, o mercado de trabalho aquecido contribui para a troca mais frequente de postos de trabalho, mas o choque cultural faz com que essa tendência seja mais acentuada em empresas chinesas.
"Os chineses não abrem mão de algumas de suas características culturais". Entre elas, ele cita administração extremamente centralizadora, jornadas de trabalho longas e desconfiança. "O executivo brasileiro acaba se sentindo acuado", diz. Foi o que aconteceu com André Urbano, ex-diretor de gestão de revendas da Huawei no Brasil, que pediu demissão em janeiro de 2010, depois de pouco mais de um ano na empresa.
Segundo Urbano, "é inenarrável a pressão que eles [chineses] fazem". Procurada, a Huawei não quis comentar o assunto.
MONITORAMENTO
A chamada dupla estrutura de cargos também incomodava Urbano, hoje na Diveo. Em algumas empresas chinesas (assim como coreanas), há um executivo chinês exercendo a mesma função de um brasileiro no país. São os chamados executivos "sombra" ou "espelho".
Para Marcelo Ferrari, diretor da Mercer no Brasil, o lado "bom" disso é que esse profissional chinês faz a ligação entre a matriz e a sede. Mas, para especialistas, também é sinal de desconfiança. "O executivo brasileiro gosta de autonomia e independência. Isso acaba levando a um choque com o modelo centralizador chinês", diz Jacques Sarfatti, presidente da empresa de recrutamento Russell Reynolds no Brasil.
Patrícia Franzini, ex-diretora-executiva de RH da chinesa Lenovo para América Latina, conta que os executivos brasileiros em empresas chinesas chegam a ter de submeter relatórios diários de atualização de projetos.
PRESSÃO
Uma reclamação comum entre funcionários é a pressão excessiva por resultados. "Eles estabelecem metas impossíveis de serem atingidas e não há negociação", afirmou um executivo de uma empresa chinesa que não quis ser identificado.
Em meio à forte pressão por resultados, diz ele, o fuso horário de 11 horas entre Brasil e China vira um inimigo. "Com frequência, sou acordado no meio da noite para teleconferências." Patrícia ressalta que os chineses dão menos valor à família do que os brasileiros. "Para os chineses, primeiro vem o Estado, depois a empresa, depois a família. Isso causa certo estranhamento. Eles têm dificuldade, por exemplo, em aceitar os feriados daqui."
Companhias chinesas demitem quem não cumpre meta
As empresas chinesas que atuam no Brasil são alvo de muitos pedidos de demissão. Essa é a principal causa da alta rotatividade que sofrem.
Mas especialistas ressaltam que, em consequência de seu alto grau de exigência, as empresas chinesas também têm a prática de dispensar, com frequência, os funcionários que não cumprem metas.
Paul Liu, diretor-presidente da consultoria Fortune Consulting, afirma que a combinação dessas duas tendências faz com que a rotatividade em alguns setores -caso do de tecnologia- seja mais do que o dobro da média das companhias brasileiras: "Nas companhias chinesas, os funcionários são constantemente avaliados, em relatórios diários, semanais, quinzenais, mensais."
Segundo o relato de um executivo de uma companhia chinesa, despesas para o retorno definitivo ao Estado de origem -em caso de demissão por parte da empresa- já estão incluídas no pacote de contratação nos altos escalões.
"Isso é feito porque, além de muita gente não aguentar e acabar pedindo demissão, a empresa também demite muitos empregados", diz.
Operário da Foxconn se queixa de pressão e ritmo de trabalho
"Da porta para fora, é uma coisa. Lá dentro, é outra", cochicha um dos funcionários em Jundiaí da Foxconn, a gigante asiática que anunciou em abril investimentos de US$ 12 bilhões para produzir iPads no Brasil.
Operários na linha de produção da maior fornecedora de componentes eletrônicos do mundo reclamam de coação para fazer hora extra, pressão para atingir metas, ritmo de trabalho hiperintenso, múltiplos contratos de experiência e alta rotatividade. "Dizem que precisam de gente para sábado e domingo. Se a gente diz que não dá, perguntam: "Por quê? Que compromisso você tem?". Falam bem perto, assim [indica proximidade face a face]. A gente se sente coagido."
Nas varas do Trabalho de Jundiaí, há 166 ações contra a Foxconn, que emprega cerca de 3.000 pessoas na cidade. Dessas, 87% foram contratadas a partir de 2009. A Itautec, com 1.600 funcionários, acumula 151 ações desde 1994. A chinesa AOC (com 1.000 empregados), 41 ações desde 2008. A Foxconn não se pronunciou.
No ano passado, a empresa teve de modificar condições de trabalho na China após uma onda de suicídios.
CRESCIMENTO RÁPIDO
Erazê Sutti, advogado do sindicato dos metalúrgicos da região, diz que há problemas em todo o setor, mas que a Foxconn cresceu muito rápida e desordenadamente.
"Por causa da demanda de trabalho, com horas extras, ela conseguiu causar lesão em trabalhadores em seis meses, coisa que a gente não imaginava ser possível."
Uma das principais queixas nas ações, diz Sutti, é doença do trabalho. "Você tem de se adaptar ao posto, eles não pensam no corpo do funcionário", reclama uma operária. O advogado salienta, contudo, que "são poucas as empresas que respeitam as normas de ergometria".
Outras queixas recorrentes eram múltiplos contratos de experiência – o que é ilegal. "Isso diminuiu um pouco com o crescimento da economia e a falta de mão de obra." Mas funcionários ainda reclamam dessa prática. O histórico da Foxconn em Jundiaí e em Indaiatuba, as maiores das cinco fábricas do grupo no país, apresenta idas e vindas com o Ministério Público. Em 2007, mil temporários foram regularizados, 21 estrangeiros foram deportados e a empresa pagou multa superior a R$ 50 mil.
"Eles ficaram mais atentos à legislação, até porque senão pesa no bolso", diz Sutti. Na Zona Franca de Manaus, onde há cerca de 5.000 brasileiros em mais de dez empresas chinesas, há relatos, via sindicato, de coação. Na porta das fábricas chinesas, no entanto, é difícil encontrar quem fale sobre o tema. Mas a advogada Geysa Mitz, que assessora dez sindicatos, diz que metade de suas ações por assédio (humilhação na frente de colegas) está ligada às chinesas.
O procurador-geral do Trabalho, Otavio Brito Lopes, afirma que, quando há problemas, as empresas chinesas costumam "mostrar que querem se adaptar". "Elas desejam ocupar mais espaço no Brasil e não querem que a questão cultural seja usada como argumento contrário."
Hierarquia e vida sacrificada provocarão muitos choques
Confúcio é o pai de choques culturais inevitáveis entre patrões chineses e funcionários de qualquer outra cultura que não seja confuciana.
Para o criador do influente código de conduta de sociedades do Extremo Oriente (Coreia e Japão, apesar de democracias, são tão rígidos na hierarquia quanto a China), cada indivíduo tem um papel bastante claro a desempenhar com seus superiores ou com subordinados.
Obediência é chave na "sociedade harmoniosa" pensada por Confúcio, segundo os discípulos que popularizaram seus ensinamentos, totalmente apropriados pelos imperadores chineses.
Nessa sociedade, filhos devem obediência total aos pais e aos irmãos mais velhos, mulheres a seus maridos, crianças a seus professores e cidadãos ao imperador.
O confucionismo, portanto, é responsável pelo enorme prestígio da educação e dos professores nas sociedades orientais, o que faz de chineses, coreanos e japoneses excelentes alunos (mas nem sempre criativos).
Mas também cria patrões bastante duros e pouco afeitos a debater com seus subordinados. Ordem é ordem.
Some-se essa cultura ao atual momento da China. Depois de séculos de pobreza e instabilidade, e do caos e da miséria criados pelo maoísmo, os chineses têm muita pressa em fazer dinheiro e deixar o atraso para trás.
Na potência asiática, universitários têm aulas em pleno sábado à noite, crianças vão à escola de segunda a domingo e bilionários marcam entrevistas nos poucos feriados existentes.
Metade da população não tem fim de semana e não existem férias remuneradas.
Para ocidentais, isso pode ser escravidão, mas, para milhões de chineses, é um momento único em sua história, que eles precisam aproveitar antes que alguma calamidade apareça. A toada de sacrifício e trabalho duro é quase universal por lá.
Os chineses até podem se adaptar ao resto do mundo, mas, com conta bancária cada vez mais sedutora, é possível que, antes disso, muito estrangeiro aceite viver sob o estilo de vida chinês.
(Fonte: Folha de São Paulo)