Filme clássico de Charles Chaplin segue atual ao expor a lógica de produtividade e controle que, quase um século depois, marca a rotina dos trabalhadores

Neste mês de fevereiro, o clássico Tempos Modernos, de Charles Chaplin, completa 90 anos. Quase um século depois, a crítica ao modelo de produção que transforma pessoas em peças de engrenagem permanece atual, e cada vez mais próxima da realidade vivida pelos trabalhadores do setor bancário.
No filme, Carlitos aperta parafusos em ritmo frenético, vigiado pelo patrão, cobrado por produtividade e submetido a experiências absurdas como a máquina que o faria almoçar enquanto continua trabalhando. A promessa era de eficiência. O resultado foi desumanização. O corpo precisava se adaptar à máquina. O tempo do trabalhador deixava de ser humano para se tornar tempo de produção.
A engrenagem mudou de forma, mas não de lógica
No sistema financeiro, a precarização do trabalho avança sob novas roupagens. A cobrança por metas abusivas, o assédio moral travestido de “gestão por desempenho” e a pressão permanente por resultados mostram que, 90 anos depois, o controle sobre o trabalhador segue intenso. Se antes havia um supervisor observando a linha de montagem, hoje há sistemas digitais monitorando cada venda, cada ligação, cada minuto de pausa.
Os trabalhadores bancários vivem sob metas muitas vezes inalcançáveis, com ranking interno, exposição de resultados, disputa entre colegas e ameaças veladas de descomissionamento ou perda de função. A lógica é a mesma retratada por Chaplin: produzir mais, em menos tempo, com menos questionamento.
A precarização também se manifesta na expansão da contratação como pessoa jurídica (PJ), sem os direitos garantidos pela CLT. O trabalhador deixa de ter proteção trabalhista, estabilidade mínima e cobertura previdenciária adequada, assumindo riscos que antes eram do empregador. A promessa de “autonomia” esconde, muitas vezes, uma relação de subordinação com menos direitos e mais insegurança.
Mais tecnologia, mesma exaustão
A revolução tecnológica poderia ter libertado o ser humano do esforço exaustivo. No entanto, o que vemos é a intensificação do ritmo, a ampliação das metas e a individualização das responsabilidades. O discurso da inovação não pode servir para justificar retrocessos sociais.
Noventa anos depois, a obra de Chaplin segue como alerta. A modernização não pode significar precarização. A tecnologia deve servir às pessoas, e não o contrário. Defender condições dignas de trabalho, combater metas abusivas, enfrentar a pejotização e regulamentar o teletrabalho são desafios do presente.
Se a engrenagem mudou, a luta por dignidade permanece. E ela continua sendo coletiva.