Com uma sucessão de aumentos de preços de dois dígitos, os alimentos serão mais uma vez responsáveis por desviar a inflação do centro da meta de 4,5% perseguido pelo Banco Central. Como vilão do regime de metas, eles substituíram os preços administrados (como tarifas de energia elétrica e telefonia), que até 2005 desempenhavam esse papel. A forte alta de alimentos e bebidas levará a inflação ao consumidor a quase 6% em 2010. Em 12 anos do regime de metas, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) só ficou quatro vezes no centro ou abaixo do alvo – em 2000, 2006, 2007 e 2009.
A inflação dos alimentos ganhou força a partir de 2007, em boa parte sob pressão de commodities com preços determinados pelos mercados globais, que foram influenciadas pela forte expansão da renda e diminuição da pobreza nas nações mais populosas do mundo: China e Índia. A crise financeira global interrompeu por apenas um ano a tendência de alta, que voltou a manifestar-se com intensidade já em 2009.
Em 2010, os analistas estimam uma alta de 10% do grupo alimentos e bebidas, impulsionada pelo avanço de produtos como carne, feijão e açúcar. Com peso de 22,9% no IPCA, um aumento dessa magnitude levará o grupo a, isoladamente, ser fator determinante de 40% da variação do índice de preços. Em 2007, os alimentos e bebidas tiveram alta de 10,8% no IPCA e o indicador ficou em 4,5% – centro da meta -, em grande medida por causa do comportamento dos preços administrados, que subiram apenas 1,7%. Em 2008, os alimentos avançaram 11,1%, colaborando de modo decisivo para a variação de 5,9% do IPCA.
"Houve um fenômeno global de expansão no consumo de alimentos a partir de 2007, o que, combinado com a especulação nos mercados futuros, provocou um forte aumento dos preços de commodities", diz o pesquisador Paulo Picchetti, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Segundo ele, esse movimento se repete hoje e é um quadro que pode se manter em 2011. A MB Associados projeta aumento de 8,9% para o grupo alimentos e bebidas no IPCA no ano que vem.
Com o aquecimento do mercado de trabalho, o grupo de serviços, que responde por 24% do IPCA, também tem pressionado a inflação. Neste ano, deve subir 7,5%.
Valor Online