Notícias

CONSERVADORISMO E INTOLERÂNCIA SE APROPRIAM DE MOBILIZAÇÃO EM SÃO PAULO

"Isso dos vinte centavos foi só para enganar o povo", acredita Ana Martins, de 20 anos, estudante de Arquitetura. "É muito fácil baixar esses vinte centavos, e aí volta todo mundo para casa. A gente quer mais saúde, educação e menos Copa." Essa é apenas uma das dezenas de exigências que puderam ser vistas e ouvidas na quinta-feira (20) na Avenida Paulista, em São Paulo, durante a passeata que pretendia comemorar a redução da tarifa do transporte público na cidade, anunciada na última quarta-feira.

A mobilização, que começou a ser puxada no dia 6 de junho pelo Movimento Passe Livre (MPL), movimentos sociais e partidos de esquerda, massificou-se no começo desta semana e ganhou cores que destoam totalmente das organizações que conduziram o processo.

Temas como combate à corrupção, fim dos impostos, insígnias antipartidárias e críticas à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 37, que limita o poder de investigação do Ministério Público, tiveram bastante apelo entre a massa. Também foi possível ver uma série de cartazes contra os gastos públicos com a Copa das Confederações e a Copa do Mundo, que beiram os R$ 30 bilhões, e críticas à má qualidade do sistema de saúde e educação no país.

A presidenta Dilma Rousseff (PT) também se tornou alvo dos ataques proferidos por faixas e cartazes. Uma jovem que puxava um bloco com o uso de um megafone pedia que as pessoas fossem à rua "contra o governo", mas não sabia especificar contra qual administração estava protestando. "Não, a gente não é anarquista. A gente é contra esse governo. Todos os governos corruptos, esses governos que aumentam a passagem do ônibus, que roubam, são corruptos."

O próprio Movimento Passe Livre (MPL) – organizador dos atos que resultaram na revogação do aumento da passagem de ônibus, trem e metrô na cidade – havia manifestado na manhã de ontem receio de que setores mais conservadores da sociedade tentassem se apropriar das manifestações.

Depois da quinta-feira (13), quando houve repressão policial às passeatas de São Paulo e Rio de Janeiro, marchas passaram a ser realizadas em todo o país, mas aos poucos foram surgindo bandeiras e grupos mais heterogêneos, que não tinham a qualidade do transporte público como prioridade.

A mudança na composição do protesto foi tamanha que a mais recente manifestação na Avenida Paulista contou inclusive com a presença de um tucano: o ex-deputado estadual Milton Flávio. Na primeira semana de mobilizações, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e seus aliados se posicionavam radicalmente contra o movimento pela redução, tendo sido o responsável direto pelo endurecimento da PM.

"O movimento acabou permitindo que outras insatisfações viessem à tona: contra a corrupção, contra a péssima qualidade dos serviços públicos em função dos impostos altos que pagamos e a opção incorreta de dar circo pra população, fazendo Copa das Confederações, Copa do Mundo e as Olimpíadas, quando o país tem outros desafios a enfrentar", avaliou o ex-parlamentar. "Essa insatisfação se faz presente."

A estudante Tatyana Cardoso segurava uma bandeira com alguns pedidos: investigação dos gastos públicos na Copa do Mundo de 2014, saída de Renan Calheiros da presidência do Senado, endurecimento da punição a políticos envolvidos em corrupção e não votação da PEC 37 – que demonstrou não saber ao certo de que se trata. "Não sabia até ontem, mas fui me informar. Querem tirar o direito da justiça de investigar."

Outro jovem que não quis se identificar e usava uma máscara do personagem do quadrinhos V de Vingança também protestava contra a PEC 37 sem ter muita certeza do que se tratava. "Para ser bem sincero, tem uns amigos meus que dizem que não é todo esse mal que estão falando por aí", disse. "Não tenho conhecimento pra julgar. Escrevi aqui no meu cartaz e vou pesquisar mais sobre o assunto pra ter uma opinião formada."

Enquanto bandeiras de partidos políticos de esquerda, sindicatos e movimentos sociais eram arrancadas das mãos de militantes e até queimadas, sob urros de alegria da multidão, skinheads passeavam à vontade com a bandeira do estado de São Paulo. Demonstrações do tipo fizeram com que o estudante Luis Felipe Almeida afirmasse que é preciso tomar cuidado para não transformar uma vitória progressista em um avanço conservador. "O que unifica a gente aqui é uma crítica ao neonacionalismo que surgiu nos últimos atos. Há 20 dias ninguém amava o Brasil tanto assim".

Mas houve exceções. O bloco encabeçado pelo Passe Livre não foi majoritário, mas manteve o foco na discussão sobre o transporte público de qualidade e com tarifa zero. "Dá para perceber que existem setores conservadores tentando cooptar o movimento", concluiu o militante do MPL Pedro Brandão, 28 anos. "A pauta da corrupção, que é uma pauta etérea, está sendo colocada como pauta do movimento. Mas a pauta do MPL é o transporte. Lutar pelo transporte é enfrentar uma máfia que existe na cidade, que impede as pessoas de se locomover. O MPL vai continuar enfrentando isso."

Um pequeno grupo de punks e anarquistas marchou de cara fechada e sem a alegria como os jovens de cara-pintada, porque – lembravam – a polícia continua matando pobre todos os dias. "Quem está acompanhando o movimento desde o começo sabe que é um movimento pela esquerda", defendeu William José Sega, de 21 anos, que carregava uma bandeira vermelha e preta. "O MPL tem uma tradição de caminhar pela esquerda, uma tradição anticapitalista. Assistir isso que vem acontecendo hoje é temerário. Sim, temos um avanço, uma vitória. Colocamos as pessoas massivamente nas ruas. Porém, com qual discurso? É a prova concreta de quem está vindo pra cima, e muito bem organizado: é a direita."

De acordo com Pablo Capilé, fundador da rede de coletivos culturais Fora do Eixo, responsável por diversas manifestações de rua desde o ano passado e pelo "Existe amor em SP", a multiplicidade de pautas, algumas conflitantes com outras, representa um aprendizado. "A celebração do povo na rua é uma delícia", opina. "Cria o hábito de estar na rua para aprofundar os debates. Aqui temos um baile de posicionamentos, todos entendendo juntos o que está acontecendo."

Fonte: Gisele Brito e Tadeu Breda – Rede Brasil Atual

 

Veja outras notícias

Trabalhadores e bancos retomam negociações nesta quinta-feira (13)

Categoria exige valorização salarial e do piso, aumento da PLR, no va/vr, promoção da saúde e igualdade nas condições de remuneração e de ascensão para todos e todas O movimento sindical, representado pelo Comando Nacional das Bancárias e dos Bancários, e a Federação...

BB não faz proposta e quer jogar a culpa nos próprios funcionários

Durante mesa de negociações, gestão do banco afirmou que reivindicações por melhorias nas remunerações resultariam na redução de postos, mas sindicatos identificaram distorções nos cálculos Era início da tarde de quarta-feira, 6 de agosto, quando a dirigente sindical...

COE e Santander retomam negociação específica nesta quarta-feira (12)

Quarta rodada de negociações terá como foco cláusulas econômicas e sindicais, incluindo mobilidade, qualificação e reorganizações A Comissão de Organização dos Empregados (COE) do Santander se reúne com a direção do banco nesta quarta-feira (12), para a quarta rodada...