Não à terceirização
■ VALDETE SOUTO SEVERO | Juíza do Trabalho da 4ª Região
Estamos vivendo um momento de crise intensa das instituições.
Um governo de esquerda que parece haver esquecido completamente
seus compromissos políticos. Repressão a movimentos sociais como
aquele que recentemente movimentou São Paulo constituem a
prova de que nossa frágil democracia corre perigo. As ameaças
também são legislativas. Recentemente, uma lei sobre a atividade
do motorista criou dispositivos inconstitucionais, permitindo jornada
de doze horas ou mesmo indenização (sic) para horas extras
em patamar inferior ao mínimo estabelecido na Constituição.
Agora, o poder Legislativo ameaça aprovar um projeto de lei
que permite a terceirização mesmo em atividades diretamente ligadas
à finalidade social da empresa. Trata-se de uma lei vergonhosa,
que, caso aprovada, implicará ruptura definitiva com o projeto
constitucional de inclusão mediante garantia à relação de emprego
(artigo 7˚, inciso I). As instituições estão mobilizadas, mas o
poder constituído parece cego e surdo, alheio à realidade. Uma
realidade cujos números oficiais demonstram a triplicação do número
de acidentes de trabalho, inclusive com morte, nas atividades
terceirizadas. O dossiê sobre a terceirização, realizado em
2011 pelo Dieese e pela CUT, mostra dados assustadores: o número
de empresas terceirizadas que simplesmente somem no ar sem
pagar verbas salariais; a discriminação entre empregados contratados
diretamente e aqueles terceirizados; a fragilização dos vínculos,
cada vez mais curtos. Uma realidade próxima de nós. O dossiê
aponta que as empresas terceirizadas abrigam as populações
mais vulneráveis: mulheres, negros, jovens, migrantes e imigrantes.
E alerta para o fato de que “não é esse o compromisso que os
atores sociais devem ter com a construção do país”. Essa relação
“aumenta os custos para a sociedade, com a perda da qualidade
de serviços e produtos, com agressões ambientais a comunidades
vizinhas, com o empobrecimento dos trabalhadores, com a concentração
de renda, com a monetização da vida humana e com a atuação
estatal como fomentador da precarização das relações de trabalho
e, ainda, com as fraudes em licitações, evasão fiscal, focos
de corrupção, aumento das demandas trabalhistas e previdenciárias”.
A pergunta que nos inquieta é até onde vamos nessa marcha
neoliberal que parece haver perdido todos os freios.
Os trabalhadores não querem caridade. Essa é uma lógica liberal
que precisa ser superada. De nada serve o Bolsa Família ou o
Bolsa Escola, se não existem empregos seguros e estáveis, se a
remuneração continua sendo vilipendiada pela dupla (ou tripla) exploração
da mão de obra por intermédio de empresas interpostas.
Não há medida em que seja possível a terceirização. Precisamos
ter a coragem de retroceder nesse movimento de
precarização que parece haver contaminado todos os âmbitos das
relações de trabalho. Não se trata de modificar o projeto de lei,
mas de rechaçá-lo, resgatando a centralidade da relação de emprego
e a condição de empregador, afastando de uma vez por todas a
pleonástica expressão “tomador de trabalho”.