Pandora Papers expõe nomes de executivos de bancos privados e de um banco público brasileiro que tiveram nomes relacionados a empresas em paraíso fiscal
Não são somente o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que têm contas em paraísos fiscais, como a investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, em sua sigla em inglês), mostrou. As revelações sobre os chamados Pandora Papers foram publicadas domingo, 3/10. E, agora, uma constelação de banqueiros (veja a lista de nomes mais abaixo) também aparece como proprietária de contas offshore nas Ilhas Virgens Britânicas.
Muitos analistas e juristas chamam de “conflito de interesses” quando os nomes de agentes públicos, como Guedes e Campos Neto, estão envolvidos em contas offshore. E há quem diga que isso é crime. Mas a verdade é que para esses homens do sistema financeiro ter dinheiro em paraísos fiscais pode ser até questão de honra e de status.
O site Poder 360 publicou reportagem que expõe nomes dos banqueiros de bancos privados tradicionais e novos e de um banco público no Pandora Papers com empresas offshore nas Ilhas Virgens Britânicas. O mais eminente deles é Luiz Carlos Trabuco Capi. Ele foi presidente do Bradesco por nove anos e hoje é presidente do Conselho de administração deste banco privado.
Trabuco tem em torno de US$ 5 milhões (R$ 27,3 milhões) nessa conta nas Ilhas Virgens. Aliás uma das herdeiras do Bradesco, Denise Aguiar, também aprece como titular de três contas offshore no paraíso fiscal.
Ah, você que leu até aqui deve estar se perguntando que mal há em ter contas offshore. Talvez não haja nenhum, mas, a julgar pelo comportamento de grandes jornais e até do site Poder 360, podemos dizer que há um certo contexto de normalização. Fica a dúvida: será que esses senhores e senhora cheios do dinheiro não têm alguma dívida pública?
É só uma pergunta. Mas este (abaixo) trecho da matéria do Poder 360 dimensiona um pouco esse processo de naturalização que mencionamos no parágrafo anterior. Diz a matéria:
“Na cúpula do sistema bancário brasileiro, o uso de offshores para investimentos e pagar menos impostos é comum. É uma prática que vai das instituições tradicionais – como Bradesco ou Santander – aos novos bancos, caso do Inter ou Agibank. E passa pelas instituições públicas como BRB (do governo do Distrito Federal)”.
Está convencido de que é um comportamento considerado “normal” entre velhos e novos banqueiros? Estaríamos se a fome no Brasil fosse tratada como algo muito grave. Todo o dinheiro desses banqueiros em offshores mataria fome de quantos brasileiros?
É só uma pergunta. Fica a dica para pensar. Enquanto isso, reproduzimos a lista dos banqueiros que o site Poder 360 listou em sua matéria no link mais acima, com base nos documentos obtidos pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), que reuniu 615 jornalistas de 149 veículos em 117 países.
Os banqueiros do Bradesco
* Cassiano Ricardo Scarpelli, vice-presidente do Bradesco, criou a Monte Genaro International para investir em títulos internacionais, como “time deposit”, “bonds” e “bills”, como declarou na ficha que enviou p0ara as autoridades das Ilhas Virgens Britânicas.
* Eurico Ramos Fabri, diretor de crédito do Bradesco, abriu no caribe a Vincenza Inc. com a mulher e uma filha.
* Samuel Monteiro dos Santos Junior, foi vice-presidente da holding Bradesco Seguro e Previdência e hoje integra o Conselho de administração do banco e o do Grupo Fleury. É dono da Idaho Holding Company com a mulher e 2 filhos.
* Antonio Bornia, que presidiu o Bradesco na Argentina e integrou o Conselho de Administração até 2015, tem a Anfamar & Sons Limited com 2 filhos.
Importante dizer que o Bradesco divulgou a informação de que todas as offshores dos executivos do banco foram declaradas às autoridades brasileiras.
Os banqueiros do Santander
O diretor-executivo do Santander, Sergio Rial, também é apontado como “usuário antigo” de offshores. Ele, informa a reportagem do Poder 360, trabalhou no exterior por “mais de 20 anos”. Por este motivo, informa a reportagem. Teria aberto a Celtic Associates Ltd nas Ilhas Virgens Britânicas. O patrimônio da empresa seria de US$ 10 milhões (pouco mais de R$ 54 milhões).
Outro do Santander com empresa offshore ligada ao nome nas Ilhas Virgens Britânicas é o diretor Cassio Schmitt. A Tiskele Holding aparece como sua offshore.
Novos banqueiros
* Rubens Menin, dono do Banco Inter, da MRV e da CNN Brasil, teria, ao menos quatro offshores nas Ilhas Virgens Britânicas (Costelois International, Remo Invest, Stormrider Investments e Sherkoya Enterprise Ltd. Menin disse que essas duas últimas já foram fechadas.
* Marcio Testa, dono do Agibank, abriu a Yepidale International Ventures Limited, nas Ilhas Virgens Britânicas.
* Marcio Antonio Teixeira Linares, presidente do Conselho Administrativo do Banco Original, abriu a Bravar Developments Limited nas Ilhas Virgens Britânicas.
Banco público
* Paulo Henrique Costa, é presidente do BRB, banco público do Distrito Federal (DF). As offshores das Ilhas Britânicas ligadas ao seu nome são Oakwood Investments Ltd. e a Equinox Investments LLC.
Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil
Fonte: Poder 360, ICIJ
